Editorial
edição
7 - outubro de 2008
A
Modernidade no Liquidificador
por
Carlos Hollanda
Em
suas reflexões, Zygmunt Bauman chama a atenção
para o que afirma ser a fluidez do mundo pós-fordista. Contrapondo-se
dramaticamente às certezas da modernidade esse mundo, quer
o denominemos "modernidade tardia" ou "pós-modernidade",
comporta infinitas possibilidades num contexto em que quase tudo
encontra-se imbricado. Mesmo as expressões mais contraditórias
ocorrem em situações que até a primeira metade
do século XX seriam improváveis ou impensáveis.
Discursos opostos convivem em uma só circunstância
e tornam-se uma terceira coisa. Uma mesma pessoa pode ser cientista
e mística, votar em deputados de um partido, mas num presidente
de outro, optar por tradições arcaicas e utilizar
tecnologia de última geração, unir o "certo"
com o "duvidoso".
"Modernidade
líquida" é o termo que aquele autor cunhou para
designar a fase em que nos encontramos. A referida fluidez e mescla
de valores talvez assemelhe-se ao conteúdo homogêneo
produzido num liquidificador após vários elementos,
sólidos ou líquidos, terem sido ali depositados e
devidamente batidos.
Como
ainda estamos vivendo o processo, é-nos difícil o
distanciamento necessário para distinguir uma dimensão
mais abrangente e aprofundada sobre o mesmo, o que leva outros pensadores
à tentativa de apurar as noções a respeito.
Marc Augé, por exemplo, propõe o igualmente instigante
conceito dos "não-lugares". Nesse caso, a modernidade
como a conhecemos hoje seria não uma "pós",
mas uma Supermodernidade. Uma época marcada pela superabundância
em vários sentidos: a factual, a espacial e a de individualização.
A primeira estaria ligada à temporalidade, como aceleração
da História pelo excesso de informações e da
interdependência do que Augé chama de "sistema
mundo". O excesso espacial refere-se à
concentração
urbana, migrações populacionais e à produção
de não-lugares – aeroportos, vias expressas, salas de espera,
centros comerciais, estações de metrô, campos
de refugiados, supermercados, etc., por onde circulam pessoas
e bens. O indivíduo que se crê o centro do mundo,
tornando-se referência para interpretar as informações
que lhe chegam, constitui-se a terceira figura de excesso. O processo
amplo de singularização de pessoas, lugares, bens
e pertencimentos faz o contraponto com um processo de relacionamento
tal qual o da mundialização da cultura.*
Foi
pensando nesses problemas atuais que propusemos o encarte temático
desta edição, cujos artigos ou abordam diretamente
as questões pós-modernas, segundo as bases teóricas
fornecidas por expoentes no assunto, ou consistem de matérias
cujas características são marcadamente influenciadas
pelo momento em que nos encontramos. No outro segmento, temos um
bom número de trabalhos que seguem a linha habitual de História,
imagem e narrativas, com pesquisas e considerações
acerca de Quadrinhos, Fotografia, Cinema, TV, História da
Arte e Jornalismo. Podemos destacar, entre eles:
a)
os argumentos em defesa de determinados fatores que, para alguns,
seriam considerados duvidosos como patrimônio ou fonte de
pesquisa;
b)
o processo de recepção que idéias e concepções
sociopolíticas têm entre leitores de obras literárias
que as abordam,
c)
as representações do feminino em revistas de variedades
e nos discursos sociais do Ocidente em se tratando de relações
identitárias
d)
a importância de um grande escritor brasileiro no ano do
centenário de sua morte;
e)
a análise sobre a trajetória das charges na mídia
desde a litografia até a Internet;
Apesar
da variedade de temas e de fontes, em quase todos os casos há
certos pontos em comum, ainda que não exatamente respondendo
a uma intencionalidade dos autores: a hibridização,
a desreferencialização identitária e a coexistência
de múltiplos estilos, estéticas e idéias. Com
isso, convido o leitor a saborear as páginas que aqui dispomos,
lembrando que corre-se o risco de viver um intenso estímulo
à curiosidade e ao desejo de pesquisa.
Saudações
cordiais,
Carlos
Hollanda
Mestre em História Comparada (PPGHC-UFRJ)
Prof. Subst. do Departamento de História e Teoria da Arte
(BAH) - UFRJ
Prof.
Subst. do Departamento de Análise e Representação
da Forma (BAF) - UFRJ
06/10/2008
*
Ver resenha de Flávia Rieth, em http://www.ufrgs.br/ppgas/ha/pdf/n2/HA-v1n2a26.pdf. |