Editorial
edição
6 - abril de 2008
Um
diálogo com o passado através das mídias contemporâneas
por
Carlos Hollanda
Mesmo
no mundo acadêmico, onde projetamos expectativas acerca da
abertura ao conhecimento e a visões críticas sobre
os diversos preconceitos
em sociedade, podemos, vez por outra, ouvir a indagação:
"para quê estudar Antigüidade ou Idade Média?
O Brasil não teve Idade Média...". Soa estranho
ouvir tal pronunciamento vindo dos lábios de alguns professores
cujos trabalhos e histórico nos inspira admiração
e respeito. De fato, o problema não se restringe a esses
campos do conhecimento. O preconceito parece ser uma característica
inerentemente humana, uma via de mão dupla que ora é
perpetrada ora é sofrida pelos mesmos agentes. Em certos
casos as resistências de certos pesquisadores a determinados
temas ocultam visões estereotipadas e a recusa em admitir
a possibilidade de não dominarem esse ou aquele assunto.
Embora estejamos falando de pessoas com um altíssimo grau
de instrução, com produção científica
considerável, não raro nos deparamos com os referidos
preconceitos, alicerçados por justificativas de quase impecável
racionalidade para rejeitar um ou outro ponto de vista. Não
há como estabelecer uma medida entre o "melhor"
ou o "pior" preconceito, mas impressiona o fato de que
justamente cientistas das áreas de humanas, tão empenhados
em analisar criticamente as facetas do comportamento, podem vir
a desenvolvê-lo de maneira ainda mais rígida do que
a das pessoas que não têm tanta formação.
Um
passo fundamental na trajetória do estudioso das ciências
humanas é o de relativizar os próprios conhecimentos
e convicções oriundos do saber no qual cada um é
especialista. É procurar não ser escravo do especialismo.
É não acreditar-se num patamar superior e intocável,
cujas verdades são inquestionáveis e sempre capazes
de decifrar o outro, não possuidor de sua "luz"
científica ou, ao menos, não possuidor dos mesmos
conhecimentos enunciados exatamente da mesma forma. Toda essa reflexão
suscita o desejo de reler os escritos de Paul Veyne e de José
Carlos Rodrigues, a propósito.
Nossa
presente edição transita entre a Antigüidade
e a Contemporaneidade, fazendo uma breve passagem na educação
medieval e nas crenças e conhecimentos populares da modernidade.
Aqui temos a impressão de que aqueles que vêm produzindo
conhecimento nos últimos anos estão relativizando
com mais ênfase seus próprios enfoques. Não
se pode pensar em mundo contemporâneo sem pensar e compreender
cada vez mais apuradamente as heranças da Antigüidade,
da Idade Média, da Idade Moderna. É preciso conversar
com elas como se fossem pessoas que estamos constantemente passando
a conhecer e reconhecer.
Aquilo
que as mídias atuais veiculam, seja no cinema, na TV, no
rádio, nas publicações impressas (quadrinhos,
livros, jornais) e na Internet, nos têm trazido com muita
freqüência um olhar histórico ou pretensamente
histórico. Mais do que uma simples preocupação
em engordar contas bancárias de cineastas e outros produtores
midiáticos, esse fenômeno responde a uma necessidade
sociocultural de nosso tempo de dialogar com aquilo que fomos e,
por conseqüência, o que nos tornamos. De nada adianta
julgar uma obra literária (roteiros em geral, livros e demais
narrativas) em busca de nela encontrar uma precisão absoluta
em termos históricos. Toda obra é filha de seu tempo
e lugar e a eles se curva. Mais vale, então, entender o que
traz à visão de hoje aquilo que tentamos desenterrar
do passado, ainda que eivado de elementos que nos são familiares
porque atuais e não da época de que falam.
A
cada volume de conhecimento adquirido as supracitadas heranças
vão ganhando contornos mais interessantes e maior profundidade.
Tudo isso é extremamente útil, pois conhecer aquilo
que é anterior a nós é como conhecer um outro.
Conhecer o outro, com todas as suas contradições,
é conhecer a nós mesmos e isso não é
pouca coisa num mundo cada vez mais complexo como este em que vivemos.
Carlos
Hollanda
Mestre em História Comparada (PPGHC-UFRJ)
Prof. Subst. do Departamento de Teoria e História da Arte
(BAH) - UFRJ
Prof.
Subst. do Departamento de Análise e Representação
da Forma (BAF) - UFRJ
26/04/2008 |