Constelar - Última edição Astroletiva

ISSN 1808-9895

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Editorial
edição 5- setembro de 2007

A redescoberta dos quadrinhos em tempos de mídia planetária
por Carlos Hollanda

Entre as idéias mais criativas e inteligentes nas artes, na literatura e na comunicação contemporâneas podemos certamente destacar as histórias em quadrinhos. Esta mídia, que vem desde o século XIX agregando leitores e consumidores, desde os analfabetos até os eruditos, passou por muitas mudanças promovidas pelos avanços tecnológicos, especialmente os mais recentes, que permitem aos artistas e escritores uma agilidade sem precedentes em sua produção. Uma agilidade que atualmente já não é mais tão dependente do poder econômico das grandes editoras ou das grandes distribuidoras, muito embora a hegemonia destas se mantenha em termos de mercado. Contudo, com o advento da Internet e de iniciativas localizadas, regionais, de autores e editores independentes, além dos chamados "scans" (histórias em quadrinhos digitalizadas via scanner e disponibilizadas em sites de compartilhamento, com ou sem autorização), o público passou a ter um acesso nunca antes imaginado a esse divertimento e a essa expressão cultural que não pára de se desenvolver e estimular novos criadores ou pesquisadores na área. Em seus primórdios as HQ's eram um entretenimento barato, acessível mesmo para aqueles que viveram a Grande Depressão dos anos 30, nos EUA e suas repercussões em outros países. Hoje, as editoras redescobriram um mercado que só tende a crescer e investem em publicações para públicos diferenciados, sobretudo o adulto, que constitui uma significativa parcela do mercado e consome títulos de alto custo, em edições luxuosas, com capa dura e papel couché impresso em cores. Isso, é claro, no Brasil, pois em países como EUA, França e Japão, por exemplo, o consumo de quadrinhos sempre foi muito grande, possuindo as HQ's, em muitos casos, status igual ou próximo às artes tradicionalmente consideradas nas galerias e nos círculos eruditos.

Nossa edição especial comemora 2 anos de muito trabalho e satisfação entre pesquisas e práticas ligadas à mídia e às Ciências Humanas. Começamos, logo na primeira edição e no primeiro artigo, com os quadrinhos. No momento histórico do primeiro lançamento estávamos em meio ao boom de várias expressões quadrinísticas motivadas, entre outros fatores, pela chegada dos novos filmes de super-heróis, assim como as demais produções cinematográficas relacionadas aos comics norte-americanos. Com isso, a linguagem dos quadrinhos e seus personagem vinham ganhando novo fôlego, fazendo com que a indústria aproveitasse o interesse gerado pelo estímulo ao imaginário e derramasse diversos brinquedos, brindes, badulaques mil no mercado. Hoje, não muito tempo depois, tal fenômeno difere bem pouco. Os meios de comunicação vão-se tornando mais acessíveis, a informação deixa de ser privilégio de poucos, enquanto reiteram-se a cada momento os contornos de uma mídia planetária. Que conseqüências isso poderá ter nos anos vindouros? O que implica a absorção massiva de tantas informações? O que elas levam e trazem e quais seus efeitos a médio e longo prazo? Algumas das análises de nossos articulistas traçam um perfil do processo, enquanto outros preocupam-se em decodificar, por intermédio da semiótica e outras ferramentas conceituais, os elementos socioculturais transmitidos nos quadrinhos. Para tornar claro o que definimos como "mídia planetária", eis um excerto do artigo "Estratégias de mídia no cenário global", de Denis de Moraes, na revista Contracampo no. 2:

No contexto de economia globalizada e de cultura mundializada que caracteriza o capitalismo tardio, as tecnologias propiciam ao campo da comunicação um dinamismo sem precedentes. Elas tornam disponível, a camadas ponderáveis de audiência, um estoque inimaginável de dados e imagens, de opções de entretenimento e de simulacros. Os aparatos de divulgação disponibilizam signos sociais que assumem significação mundial. Não apenas marcas de produtos (Benetton, McDonald’s, Levi’s, Mitsubishi, Microsoft, Kodak, Panasonic, Visa, IBM, Nestlé, Phillips, Calvin Klein, Nike etc.), como também referências culturais (artistas, ídolos esportivos, estilistas, pensadores, programas de televisão, filmes, vídeos etc.) afirmam-se perante os consumidores, sem procedências nitidamente identificadas.

Tais signos prefiguram uma memória coletiva partilhada por pessoas dispersas nos rincões geográficos. Não mais uma memória enraizada em tradições nacionais, regionais ou locais, mas traçada e reconhecível em estilos de vida universais. Em torno de símbolos desterritorializados (o jeans, o tênis, o carro importado, a pizza express, a macarena, os drive-thrus, as excursões à Disneyworld) agregam-se grupos sociais de diferentes hemisférios, continentes, países, etnias, raças, crenças e idiomas (embora a supremacia do inglês o credencie como intercomunicante global). O cidadão comum ufana-se de consumir produtos idênticos aos das lojas de Londres ou de Frankfurt, e a publicidade faz questão de amplificar o encantamento cosmopolita: “It’s a planet Reebok”, “O mundo fala primeiro através da CNN”, “Descobrindo o mundo com o Discovery Channel”. Bastaria lembrar o culto transterritorial e multicultural aos astros da NBA norte-americana.

Aqui entendemos que os quadrinhos constituem uma parcela importante em todo esse processo, veiculando sistemas de crença, ideologias, modelos comportamentais, além, é claro, de produtos, marcas etc. Mas, vale dizer, os quadrinhos não se resumem a super-heróis, humor, ou, melhor ainda, aos comics e aos mangás ("mangá" é "história em quadrinhos", em japonês). Há um bem amplo espectro criativo na produção dos quadrinhos que, sim, veiculam ideologias, crenças e tudo o mais. Porém, as nuances variam muito de país para país, de região para região, de cultura para cultura. Nesta edição procuramos dar um dessa variedade ao leitor, suscitando, entre outras coisas, as análises de especialistas em quadrinhos estrangeiros e nacionais.

Além de nosso "Encarte Especial Virtual" sobre histórias em quadrinhos, trazemos outros 16 artigos da temática tradicional desta publicação e uma resenha. Os assuntos trazem à baila os problemas climáticos, as questões identitárias nas regiões Norte, Nordeste, Sul e Centro-Oeste do Brasil, análises sobre obras literárias, cinema, entre a História Antiga e Contempoânea. Não poderiam faltar nesta nossa comemoração autores que lançam seus olhares para as fotografias, os mitos, bem como a memória de escravos, imigrantes e as heranças culturais e arquitetônicas.

Esperamos que o conteúdo aqui disponibilizado proporcione a você, leitor(a), uma ótima leitura e, quem sabe, algumas boas descobertas. Uma vez que como editores, autores e leitores, somos co-participantes da construção desta revista, parabéns a nós todos por esses dois anos completados.

Carlos Hollanda
Mestre em História Comparada (PPGHC-UFRJ)
Prof. Substituto do Departamento de Teoria e História da Arte (BAH) da UFRJ

26/09/2007

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História, imagem e narrativas