Editorial
edição
5- setembro de 2007
A
redescoberta dos quadrinhos em tempos de mídia planetária
por
Carlos Hollanda
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Entre
as idéias mais criativas e inteligentes nas artes, na literatura
e na comunicação contemporâneas podemos certamente
destacar as histórias em quadrinhos. Esta mídia, que
vem desde o século XIX agregando leitores e consumidores,
desde os analfabetos até os eruditos, passou por muitas mudanças
promovidas pelos avanços tecnológicos, especialmente
os mais recentes, que permitem aos artistas e escritores uma agilidade
sem precedentes em sua produção. Uma agilidade que
atualmente já não é mais tão dependente
do poder econômico das grandes editoras ou das grandes distribuidoras,
muito embora a hegemonia destas se mantenha em termos de mercado.
Contudo, com o advento da Internet e de iniciativas localizadas,
regionais, de autores e editores independentes, além dos
chamados "scans" (histórias em quadrinhos digitalizadas
via scanner e disponibilizadas em sites de compartilhamento, com
ou sem autorização), o público passou a ter
um acesso nunca antes imaginado a esse divertimento e a essa expressão
cultural que não pára de se desenvolver e estimular
novos criadores ou pesquisadores na área. Em seus primórdios
as HQ's eram um entretenimento barato, acessível mesmo para
aqueles que viveram a Grande Depressão dos anos 30, nos EUA
e suas repercussões em outros países. Hoje, as editoras
redescobriram um mercado que só tende a crescer e investem
em publicações para públicos diferenciados,
sobretudo o adulto, que constitui uma significativa parcela do mercado
e consome títulos de alto custo, em edições
luxuosas, com capa dura e papel couché impresso em cores.
Isso, é claro, no Brasil, pois em países como EUA,
França e Japão, por exemplo, o consumo de quadrinhos
sempre foi muito grande, possuindo as HQ's,
em muitos casos,
status igual ou próximo às artes tradicionalmente
consideradas nas galerias e nos círculos eruditos.
Nossa
edição especial comemora 2 anos de muito trabalho
e satisfação entre pesquisas e práticas ligadas
à mídia e às Ciências Humanas. Começamos,
logo na primeira edição e no primeiro artigo, com
os quadrinhos. No momento histórico do primeiro lançamento
estávamos em meio ao boom de várias expressões
quadrinísticas motivadas, entre outros fatores, pela chegada
dos novos filmes de super-heróis, assim como as demais produções
cinematográficas relacionadas aos comics norte-americanos.
Com isso, a linguagem dos quadrinhos e seus personagem vinham ganhando
novo fôlego, fazendo com que a indústria aproveitasse
o interesse gerado pelo estímulo ao imaginário e derramasse
diversos brinquedos, brindes, badulaques mil no mercado. Hoje, não
muito tempo depois, tal fenômeno difere bem pouco. Os meios
de comunicação vão-se tornando mais acessíveis,
a informação deixa de ser privilégio de poucos,
enquanto reiteram-se a cada momento os contornos de uma mídia
planetária. Que conseqüências isso poderá
ter nos anos vindouros? O que implica a absorção massiva
de tantas informações? O que elas levam e trazem e
quais seus efeitos a médio e longo prazo? Algumas das análises
de nossos articulistas traçam um perfil do processo, enquanto
outros preocupam-se em decodificar, por intermédio da semiótica
e outras ferramentas conceituais, os elementos socioculturais transmitidos
nos quadrinhos. Para tornar claro o que definimos como "mídia
planetária", eis um
excerto do artigo "Estratégias
de mídia no cenário global", de Denis de
Moraes, na revista Contracampo no. 2:
No
contexto de economia globalizada e de cultura mundializada que
caracteriza o capitalismo tardio, as tecnologias propiciam ao
campo da comunicação um dinamismo sem precedentes.
Elas tornam disponível, a camadas ponderáveis
de audiência, um estoque inimaginável de dados
e imagens, de opções de entretenimento e de simulacros.
Os aparatos de divulgação disponibilizam signos
sociais que assumem significação mundial. Não
apenas marcas de produtos (Benetton, McDonald’s, Levi’s, Mitsubishi,
Microsoft, Kodak, Panasonic, Visa, IBM, Nestlé, Phillips,
Calvin Klein, Nike etc.), como também referências
culturais (artistas, ídolos esportivos, estilistas, pensadores,
programas de televisão, filmes, vídeos etc.) afirmam-se
perante os consumidores, sem procedências nitidamente
identificadas.
Tais
signos prefiguram uma memória coletiva partilhada por
pessoas dispersas nos rincões geográficos. Não
mais uma memória enraizada em tradições
nacionais, regionais ou locais, mas traçada e reconhecível
em estilos de vida universais. Em torno de símbolos desterritorializados
(o jeans, o tênis, o carro importado, a pizza express,
a macarena, os drive-thrus, as excursões à Disneyworld)
agregam-se grupos sociais de diferentes hemisférios,
continentes, países, etnias, raças, crenças
e idiomas (embora a supremacia do inglês o credencie como
intercomunicante global). O cidadão comum ufana-se de
consumir produtos idênticos aos das lojas de Londres ou
de Frankfurt, e a publicidade faz questão de amplificar
o encantamento cosmopolita: “It’s a planet Reebok”, “O mundo
fala primeiro através da CNN”, “Descobrindo o mundo com
o Discovery Channel”. Bastaria lembrar o culto transterritorial
e multicultural aos astros da NBA norte-americana.
Aqui
entendemos que os quadrinhos constituem uma parcela importante em
todo esse processo, veiculando sistemas de crença, ideologias,
modelos comportamentais, além, é claro, de produtos,
marcas etc. Mas, vale dizer, os quadrinhos não se resumem
a super-heróis, humor, ou, melhor ainda, aos comics e aos
mangás ("mangá" é "história
em quadrinhos", em japonês). Há um bem amplo espectro
criativo na produção dos quadrinhos que, sim, veiculam
ideologias, crenças e tudo o mais. Porém, as nuances
variam muito de país para país, de região para
região, de cultura para cultura. Nesta edição
procuramos dar um dessa variedade ao leitor, suscitando, entre outras
coisas, as análises de especialistas em quadrinhos estrangeiros
e nacionais.
Além
de nosso "Encarte Especial Virtual" sobre histórias
em quadrinhos, trazemos outros 16 artigos da temática tradicional
desta publicação e uma resenha. Os assuntos trazem
à baila os problemas climáticos, as questões
identitárias nas regiões Norte, Nordeste, Sul e Centro-Oeste
do Brasil, análises sobre obras literárias, cinema,
entre a História Antiga e Contempoânea. Não
poderiam faltar nesta nossa comemoração autores que
lançam seus olhares para as fotografias, os mitos, bem como
a memória de escravos, imigrantes e as heranças culturais
e arquitetônicas.
Esperamos
que o conteúdo aqui disponibilizado proporcione a você,
leitor(a), uma ótima leitura e, quem sabe, algumas boas descobertas.
Uma vez que como editores, autores e leitores, somos co-participantes
da construção desta revista, parabéns a nós
todos por esses dois anos completados.
Carlos
Hollanda
Mestre em História Comparada (PPGHC-UFRJ)
Prof. Substituto do Departamento de Teoria e História da
Arte (BAH) da UFRJ
26/09/2007 |