Constelar - Última edição Astroletiva

ISSN 1808-9895

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Editorial
edição 4 - abril de 2007

Ainda neste mês de abril de 2007, com a casa às escuras após um problema no fornecimento de energia elétrica local, ouço os passinhos de meu filho correndo em minha direção, enquanto choramingava: "papai, estou com medo!". Tentei acalmá-lo enquanto procurava velas e uma lanterna e pus-me a conversar com ele fazendo vozes de personagens de desenho animado. Apesar de ter conseguido fazê-lo soltar risadas e de vê-lo mais tranqüilo em meu colo, eu mesmo estava apreensivo. Pouco antes olhara pela janela e vira uma grande extensão do bairro à mercê da repentina falta de luz. Naquele momento pensara como tantos cariocas que já passaram por situações de risco e de perda humana: "Será que não foi sabotagem? Será que não haverá mais um tiroteio aqui perto? Será que não seria melhor sairmos de perto das janelas (céus, e as balas perdidas?!) até que tudo se normalize?"

Conscientemente percebia quão paranóicos aqueles pensamentos deviam ser. Entretanto, impossível descartá-los, mesmo que eu dissesse para mim mesmo que muito de tudo aquilo era fruto de um bombardeio midiático sobre minhas próprias reações. Poucas horas depois a energia voltou e tudo regressou à rotina. Acontece que antes do restabelecimento da luz elétrica, recordei-me de duas ocorrências não muito distantes no tempo, coisa de apenas um ano antes, quando bandidos e policiais trocaram tiros em frente ao prédio onde resido. Em ambas, as marcas de balas nas paredes das edificações situavam-se na altura das janelas, dos parapeitos, das cabeças, dos tóraces. Vizinhos relataram (e mostraram) o momento em que os projéteis entraram zunindo e quebrando vidraças em seus lares.

Desde então dei-me conta do óbvio: o medo é um sintoma que, como a dor e a ansiedade, responde a algum tipo de estímulo - muitas vezes interno, oriundo de memórias dolorosas retidas no subconsciente. Outras vezes, e é esse tipo de medo que queremos abordar nesta edição, o agente causador é externo, muito embora ambos os tipos de estímulo possam coexistir numa mesma situação. O medo pode provir de experiências diretas, como um assalto e uma tsunami, ou indiretas, como a expectativa da fome causada pela seca ou pelo desemprego em massa, por ataques terroristas (estes seriam diretos quando ocorrem e indiretos pelo temor antecipado que provocam ) ou, ainda, pela política agressiva e paranóide de uma ou outra nação hegemônica.

Os sintomas não são as causas, apesar de que podem ser facilmente confundidos com elas. Para que um sintoma cesse seu alarme é preciso detectar e eliminar as causas que o trazem. Ora, o medo não é um problema. De fato, ele é até saudável, uma reação protetora ante adversidades, afinal até o bom senso é uma espécie de temor marcado pela ponderação. O grande problema é que nossos sintomas têm causas muito profundas, talvez detectáveis através dos "raios-x" das ciências humanas. Afinal de contas, problemas climáticos, tanto quanto as desigualdades econômicas e preconceitos sociais, podem ter origem no comportamento humano e concepções de mundo.

Estamos também vivendo, especialmente desde os últimos anos do século XX, um momento em que as mídias suscitam receios arraigados em diversas sociedades e as confrontações políticas avançam em um campo de batalha urbano e internacional pelo terrorismo ou pelo espectro do uso bélico da energia nuclear. Um ótimo exemplo da expressão desses temores e da sensação de alteração drástica de referenciais é o número crescente de produções cinematográficas com elementos distópicos e apocalípticos, desde a trilogia de Matrix (1999-2003) até os escatológicos, com o festival de secreções e regurgitações em desenhos animados como Billy e Mandy e A Turma do Bairro ou, ainda, os filmes que são quase dissecações públicas em corpos vivos, como os últimos de Mel Gibson.

Em meio às situações concretas de pavor em seqüestros de ônibus, trafegando por construções imaginárias apocalíptico-milenaristas, evocando o fantasma do levante de uma massa de marginalizados nos constrangimentos dos seqüestros virtuais por telefone, os fatores que levam o mundo atual a lidar com essa avalanche de experiências intensas clama por uma análise mais acurada. Seria esse um fenômeno exclusivamente contemporâneo?

O tema do medo, sobretudo o daquele causado pelas grandes violências perpetradas pelo ser humano, não poderia esgotar-se numa só edição. De qualquer modo, esperamos retomar o assunto em outros artigos ao longo das edições seguintes. Aqui procuramos abordar o assunto sob diversos aspectos. Entre eles podemos destacar:

a) O medo confrontado pelas lideranças comunitárias ante a violência ou os mandos e desmandos dos detentores de algum tipo de poder.

b) A busca das ciências contemporâneas por condições mais satisfatórias de vida esbarrando nos problemas ambientais, socioculturais e econômicos originados pela aplicação indiscriminada e, por tantas vezes gananciosa, dos princípios científicos; idem quanto ao rompimento com outras formas de conhecimento que o modelo científico vigente parece temer devido ao fato de que sua linguagem consiste em paradigmas petrificados que dificilmente se flexibilizam ante propostas que não utilizam as mesmas regras de seu status legitimado.

c) As representações de carnificinas, como as ocorridas na II Guerra Mundial através do cinema.

d) As paranóias políticas e os totalitarismos sob um ponto de vista social e psicológico.

Para finalizar, algumas palavras sobre outros dos fatores que motivaram esta edição: um deles é a apreciação em comum do conselho editorial pela obra de Jean Delumeau, especialmente "História do medo no Ocidente" (Companhia das Letras, 1989), "Mil Anos de Felicidade" (Companhia das Letras, 1997) e "O que sobrou do paraíso?" (Companhia das Letras, 2003). Outro motivo é o temor que estamos vivendo, coisa que vimos mencionando desde o primeiro parágrafo. Há, todavia, um fator que veio a acrescentar-se meses depois de fazermos a proposta de um dossiê sobre esses problemas. Essa proposta foi apresentada ainda em outubro/novembro de 2006. Em fevereiro de 2007 tive um membro de minha própria família vitimado e morto em um ato de extrema violência, seis dias após o terrível ocorrido com o menino João Hélio, arrastado por quilômetros enquanto estava preso ao cinto de segurança do carro que fora roubado de seus pais.

Hesitei bastante em escrever sobre experiências pessoais e, sobretudo, em incluir essa informação aqui. Parte de mim dizia que estaria apenas chamando a atenção para um problema familiar, particular, que nada contribuiria para dar coerência à proposta anteriormente apresentada. Contudo, pensei melhor e percebi que este é obviamente um problema coletivo e de graves proporções. Talvez nós até estejamos sitiados, como diz metaforicamente o título de nosso dossiê, mas isso não quer dizer que precisamos nos encolher e esperar um suposto inevitável. Talvez venhamos a experimentar situações ainda mais complicadas relacionadas ao clima do planeta, à fome, às guerras e brinquedos administrativo-político-militares, às corrupções e tantos outros absurdos que acentuam várias dessas dificuldades como se elas fossem irrelevantes ou não atingissem quem as cria. Não podemos ficar acuados. É preciso agir de alguma maneira ao nosso alcance, considerando as limitações de cada um. Em nosso caso, uma das ações possíveis foi o uso de um instrumento de mídia e reflexão acadêmica. Outras pessoas podem lançar mão de outros recursos. O importante é fazer algo a respeito.

Espero que o material que ora disponibilizamos, bem como o que viremos a disponibilizar nos semestres subseqüentes, sirvam de inspiração a fim de atenuar a enormidade do problema que estamos vivendo. Todos nós.

Carlos Hollanda
Mestre em História Comparada (PPGHC-UFRJ)
Prof. Substituto do Departamento de Teoria e História da Arte (BAH) da UFRJ

25/04/2007

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