Editorial
edição
4 - abril de 2007
Ainda
neste mês de abril de 2007, com a casa às escuras após
um problema no fornecimento de energia elétrica local, ouço
os passinhos de meu filho correndo em minha direção,
enquanto choramingava: "papai, estou com medo!". Tentei
acalmá-lo enquanto procurava velas e uma lanterna e pus-me
a conversar com ele fazendo vozes de personagens de desenho animado.
Apesar de ter conseguido fazê-lo soltar risadas e de vê-lo
mais tranqüilo em meu colo, eu mesmo estava apreensivo. Pouco
antes olhara pela janela e vira uma grande extensão do bairro
à mercê da repentina falta de luz. Naquele momento
pensara como tantos cariocas que já passaram por situações
de risco e de perda humana: "Será que não foi
sabotagem? Será que não haverá mais um tiroteio
aqui perto? Será que não seria melhor sairmos de perto
das janelas (céus, e as balas perdidas?!) até que
tudo se normalize?"
Conscientemente
percebia quão paranóicos aqueles pensamentos deviam
ser. Entretanto, impossível descartá-los, mesmo que
eu dissesse para mim mesmo que muito de tudo aquilo era fruto de
um bombardeio midiático sobre minhas próprias reações.
Poucas horas depois a energia voltou e tudo regressou à rotina.
Acontece que antes do restabelecimento da luz elétrica, recordei-me
de duas ocorrências não muito distantes no tempo, coisa
de apenas um ano antes, quando bandidos e policiais trocaram tiros
em frente ao prédio onde resido. Em ambas, as marcas de balas
nas paredes das edificações situavam-se na altura
das janelas, dos parapeitos, das cabeças, dos tóraces.
Vizinhos relataram (e mostraram) o momento em que os projéteis
entraram zunindo e quebrando vidraças em seus lares.
Desde
então dei-me conta do óbvio: o medo é um sintoma
que, como a dor e a ansiedade, responde a algum tipo de estímulo
- muitas vezes interno, oriundo de memórias dolorosas retidas
no subconsciente. Outras vezes, e é esse tipo de medo que
queremos abordar nesta edição, o agente causador é
externo, muito embora ambos os tipos de estímulo possam coexistir
numa mesma situação. O medo pode provir de experiências
diretas, como um assalto e uma tsunami, ou indiretas, como a expectativa
da fome causada pela seca ou pelo desemprego em massa, por ataques
terroristas (estes seriam diretos quando ocorrem e indiretos pelo
temor antecipado que provocam ) ou, ainda, pela política
agressiva e paranóide de uma ou outra nação
hegemônica.
Os
sintomas não são as causas, apesar de que podem ser
facilmente confundidos com elas. Para que um sintoma cesse seu alarme
é preciso detectar e eliminar as causas que o trazem. Ora,
o medo não é um problema. De fato, ele é até
saudável, uma reação protetora ante adversidades,
afinal até o bom senso é uma espécie de temor
marcado pela ponderação. O grande problema é
que nossos sintomas têm causas muito profundas, talvez detectáveis
através dos "raios-x" das ciências humanas.
Afinal de contas, problemas climáticos, tanto quanto as desigualdades
econômicas e preconceitos sociais, podem ter origem no comportamento
humano e concepções de mundo.
Estamos
também vivendo, especialmente desde os últimos anos
do século XX, um momento em que as mídias suscitam
receios arraigados em diversas sociedades e as confrontações
políticas avançam em um campo de batalha urbano e
internacional pelo terrorismo ou pelo espectro do uso bélico
da energia nuclear. Um ótimo exemplo da expressão
desses temores e da sensação de alteração
drástica de referenciais é o número crescente
de produções cinematográficas com elementos
distópicos e apocalípticos, desde a trilogia de Matrix
(1999-2003) até os escatológicos, com o festival de
secreções e regurgitações em desenhos
animados como Billy e Mandy e A Turma do Bairro ou, ainda, os filmes
que são quase dissecações públicas em
corpos vivos, como os últimos de Mel Gibson.
Em
meio às situações concretas de pavor em seqüestros
de ônibus, trafegando por construções imaginárias
apocalíptico-milenaristas, evocando o fantasma do levante
de uma massa de marginalizados nos constrangimentos dos seqüestros
virtuais por telefone, os fatores que levam o mundo atual a lidar
com essa avalanche de experiências intensas clama por uma
análise mais acurada. Seria esse um fenômeno exclusivamente
contemporâneo?
O
tema do medo, sobretudo o daquele causado pelas grandes violências
perpetradas pelo ser humano, não poderia esgotar-se numa
só edição. De qualquer modo, esperamos retomar
o assunto em outros artigos ao longo das edições seguintes.
Aqui procuramos abordar o assunto sob diversos aspectos. Entre eles
podemos destacar:
a)
O medo confrontado pelas lideranças comunitárias ante
a violência ou os mandos e desmandos dos detentores de algum
tipo de poder.
b)
A busca das ciências contemporâneas por condições
mais satisfatórias de vida esbarrando nos problemas ambientais,
socioculturais e econômicos originados pela aplicação
indiscriminada e, por tantas vezes gananciosa, dos princípios
científicos; idem quanto ao rompimento com outras formas
de conhecimento que o modelo científico vigente parece temer
devido ao fato de que sua linguagem consiste em paradigmas petrificados
que dificilmente se flexibilizam ante propostas que não utilizam
as mesmas regras de seu status legitimado.
c) As representações de carnificinas, como as ocorridas
na II Guerra Mundial através do cinema.
d) As paranóias políticas e os totalitarismos sob
um ponto de vista social e psicológico.
Para finalizar, algumas palavras sobre outros dos fatores que motivaram
esta edição: um deles é a apreciação
em comum do conselho editorial pela obra de Jean Delumeau, especialmente
"História do medo no Ocidente" (Companhia das Letras,
1989), "Mil Anos de Felicidade" (Companhia das Letras,
1997) e "O que sobrou do paraíso?" (Companhia das
Letras, 2003). Outro motivo é o temor que estamos vivendo,
coisa que vimos mencionando desde o primeiro parágrafo. Há,
todavia, um fator que veio a acrescentar-se meses depois de fazermos
a proposta de um dossiê sobre esses problemas. Essa proposta
foi apresentada ainda em outubro/novembro de 2006. Em fevereiro
de 2007 tive um membro de minha própria família vitimado
e morto em um ato de extrema violência, seis dias após
o terrível ocorrido com o menino João Hélio,
arrastado por quilômetros enquanto estava preso ao cinto de
segurança do carro que fora roubado de seus pais.
Hesitei
bastante em escrever sobre experiências pessoais e, sobretudo,
em incluir essa informação aqui. Parte de mim dizia
que estaria apenas chamando a atenção para um problema
familiar, particular, que nada contribuiria para dar coerência
à proposta anteriormente apresentada. Contudo, pensei melhor
e percebi que este é obviamente um problema coletivo e de
graves proporções. Talvez nós até estejamos
sitiados, como diz metaforicamente o título de nosso dossiê,
mas isso não quer dizer que precisamos nos encolher e esperar
um suposto inevitável. Talvez venhamos a experimentar situações
ainda mais complicadas relacionadas ao clima do planeta, à
fome, às guerras e brinquedos administrativo-político-militares,
às corrupções e tantos outros absurdos que
acentuam várias dessas dificuldades como se elas fossem irrelevantes
ou não atingissem quem as cria. Não podemos ficar
acuados. É preciso agir de alguma maneira ao nosso alcance,
considerando as limitações de cada um. Em nosso caso,
uma das ações possíveis foi o uso de um instrumento
de mídia e reflexão acadêmica. Outras pessoas
podem lançar mão de outros recursos. O importante
é fazer algo a respeito.
Espero
que o material que ora disponibilizamos, bem como o que viremos
a disponibilizar nos semestres subseqüentes, sirvam de inspiração
a fim de atenuar a enormidade do problema que estamos vivendo. Todos
nós.
Carlos
Hollanda
Mestre em História Comparada (PPGHC-UFRJ)
Prof. Substituto do Departamento de Teoria e História da
Arte (BAH) da UFRJ
25/04/2007
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