Constelar - Última edição Astroletiva

ISSN 1808-9895

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Editorial
edição 3 - setembro de 2006

Há algum tempo, viajava num ônibus que parara no ponto para que os passageiros pudessem subir. Assim que o último entrou no veículo, o motorista deu a partida sem perceber que bem a sua frente uma senhora terminava de atravessar a rua. Talvez, para sorte de ambos, conseguiu-se freiar em tempo de não atropelá-la. O susto foi o suficiente para que uma breve e calorosa discussão se formasse. O motorista e a pedestre iniciavam um embate para ver quem estaria com a razão. De um lado, a senhora responsabilizava o motorista de pôr o veículo em movimento sem a devida atenção. “Você tem que olhar sempre pra frente”, gritava a pedestre através da porta devidamente aberta pelo então oponente. Do outro, não menos afetado, o motorista mostrava o sentido da existência do semáforo, querendo fazê-la enxergar que, em seu papel de pedestre, era o lugar para onde deveriam se dirigir todos que quisessem atravessar a rua. Bastaram poucos segundos, pedestres e ocupantes do ônibus se propuseram a se manifestar, cada qual ocupando sua devida posição circunstancial. Os partidários da senhora, todos do lado de fora do veículo, generalizavam e eternizavam a impetuosidade da categoria motorista, o grande responsável pelos infindáveis acidentes de trânsito. Os passageiros, por sua vez, subordinados ao motorista, vertiginosamente atacavam a senhora por uma apreciação pejorativa de sua idade. “Essas velhas não têm o que fazer”, era a forma pela qual parte dos ocupantes encontrou para revelar o desejo de ver o veículo novamente em seu decurso normal.

O relato acima possui um significativo paralelo com os artigos disponibilizados nesta edição. Eles propõem, de modo geral, reflexões acerca das formações identitárias dos mais diversos matizes, quer seja nas relações de gênero, de credos religiosos ou nacionalismos. Na investigação dos códigos simbólicos, com suas respectivas defesas de hábitos e representações sociais, ou nas projeções mitológicas dos artistas. Escritas que se apresentam em diferentes formas de abordagem e uma riqueza peculiar de suportes de investigação, espalhados no espaço e ao longo do tempo. Este último, por seu turno, categoria tão cara às análises historiográficas, e substancial à orientação de todos, também encontra lugares específicos de relativização e reflexão. E junto a todos esses elementos, a onipresença das relações de poder, que se manifesta de modo mais drástico em perseguições explícitas, nas dissimulações irônicas nunca despretensiosas, ou na quase lenta e imperceptível conservação de posições. É desse modo que o título de Eternidades e Identidades em desconstrução, pretende representar a variedade dos trabalhos que supera em quantidade a soma das duas primeiras edições, e cujo acúmulo de conteúdo já nos possibilita uma confrontação de posições, métodos e idéias no interior da própria revista. Que todos os pedestres, passageiros e motoristas tenham uma boa leitura.

Walter Marcelo Ramundo
01/09/2006

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