Editorial
edição
3 - setembro de 2006
Há algum
tempo, viajava num ônibus que parara no ponto para que os
passageiros pudessem subir. Assim que o último entrou no
veículo, o motorista deu a partida sem perceber que bem a
sua frente uma senhora terminava de atravessar a rua. Talvez, para
sorte de ambos, conseguiu-se freiar em tempo de não atropelá-la.
O susto foi o suficiente para que uma breve e calorosa discussão
se formasse. O motorista e a pedestre iniciavam um embate para ver
quem estaria com a razão. De um lado, a senhora responsabilizava
o motorista de pôr o veículo em movimento sem a devida
atenção. “Você tem que olhar sempre pra frente”,
gritava a pedestre através da porta devidamente aberta pelo
então oponente. Do outro, não menos afetado, o motorista
mostrava o sentido da existência do semáforo, querendo
fazê-la enxergar que, em seu papel de pedestre, era o lugar
para onde deveriam se dirigir todos que quisessem atravessar a rua.
Bastaram poucos segundos, pedestres e ocupantes do ônibus
se propuseram a se manifestar, cada qual ocupando sua devida posição
circunstancial. Os partidários da senhora, todos do lado
de fora do veículo, generalizavam e eternizavam a impetuosidade
da categoria motorista, o grande responsável pelos infindáveis
acidentes de trânsito. Os passageiros, por sua vez, subordinados
ao motorista, vertiginosamente atacavam a senhora por uma apreciação
pejorativa de sua idade. “Essas velhas não têm o que
fazer”, era a forma pela qual parte dos ocupantes encontrou para
revelar o desejo de ver o veículo novamente em seu decurso
normal.
O relato
acima possui um significativo paralelo com os artigos disponibilizados
nesta edição. Eles propõem, de modo geral,
reflexões acerca das formações identitárias
dos mais diversos matizes, quer seja nas relações
de gênero, de credos religiosos ou nacionalismos. Na investigação
dos códigos simbólicos, com suas respectivas defesas
de hábitos e representações sociais, ou nas
projeções mitológicas dos artistas. Escritas
que se apresentam em diferentes formas de abordagem e uma riqueza
peculiar de suportes de investigação, espalhados no
espaço e ao longo do tempo. Este último, por seu turno,
categoria tão cara às análises historiográficas,
e substancial à orientação de todos, também
encontra lugares específicos de relativização
e reflexão. E junto a todos esses elementos, a onipresença
das relações de poder, que se manifesta de modo mais
drástico em perseguições explícitas,
nas dissimulações irônicas nunca despretensiosas,
ou na quase lenta e imperceptível conservação
de posições. É desse modo que o título
de Eternidades e Identidades em desconstrução, pretende
representar a variedade dos trabalhos que supera em quantidade a
soma das duas primeiras edições, e cujo acúmulo
de conteúdo já nos possibilita uma confrontação
de posições, métodos e idéias no interior
da própria revista. Que todos os pedestres, passageiros e
motoristas tenham uma boa leitura.
Walter
Marcelo Ramundo
01/09/2006
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