Editorial
edição
2 - abril de 2006
Do caos ao cosmo,
do céu ao inferno, da civilização à
barbárie, da miséria ao poder, da marginalidade à
legitimidade, não necessariamente nessa ordem. Esta edição
de História, imagem e narrativas passeia por diversas
maneiras já usadas para a construção de concepções
polarizadas do mundo e das relações sociais. A tônica
fundamental dos artigos é a dos contrastes e alteridades,
ora pensando em termos de diferenças, preconceitos e desigualdades,
ora analisando o modo como a iconografia e linguagens seqüenciais
endossavam ou ajudavam a elaborar visões dicotômicas
a respeito do "outro". Trata-se também de visões
políticas que, em outras palavras, levam a pensar as condenações
por comportamentos, crenças, aparências ou idéias
diferentes daquelas adotadas pelos poderes vigentes como partes
de processos de formação de identidade.
De
modo análogo, nossos autores analisam elementos formadores
do medo coletivo expresso no imaginário de uma época,
seja através da literatura, seja através de variadas
produções iconográficas. São os discursos
elaborados para gerar novos temores ou enfatizar os já existentes
em relação àquilo que se desconhece, que vive
além das fronteiras de nosso cotidiano, de nossas práticas
e representações habituais, motivados por tradições,
por mitos existentes na formação de uma sociedade
ou por épocas de intensa crise. Estas podem ser guerras ou
alterações no cenário político motivadas
por necessidades econômicas e/ou pela adoção
de novas ideologias, interesses, tecnologias etc.
O
limiar que se constrói entre as representações
mentais que as sociedades fazem de si e das que estão fora
de sua circunscrição simbólica, a princípio
contribui para a diferenciação e demarcação
de "territórios" de atuação social.
Contudo, é nesse mesmo limiar, nessa fronteira ideológica,
às vezes também geográfica, que os aparentemente
diferentes se encontram. É nesse confronto/encontro que não
raro há uma série de trocas e uma síntese,
ainda que parcial, onde um e outro podem descobrir que, embora construídas
cultural e politicamente como opostos, são também
partes de um só eixo.
Se
"toda História é contemporânea", analisar
as imagens e narrativas do passado (inclusive as produzidas pela
historiografia) através dos problemas tratados nos artigos
desta edição, é lembrar que aqueles problemas
ressoam tanto no imaginário quanto em muitas práticas
e representações atuais. Desenvolver novos olhares
acerca dessas questões implica promover maior compreensão
sobre aquilo que lemos e vemos hoje, bem como sobre os estereótipos
que aprendemos a cultivar a respeito desse "outro".
Carlos
Hollanda
15/04/2006
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