etimológica,
nada como degustar as possibilidades que o olhar sobre a produção
imagética e literária nos oferece através
de incontáveis fontes. Cabe ainda ressaltar que as relações
sociais atuais estão progressivamente mediadas por imagens,
o que significa que esta vem sendo a principal linguagem pela
qual o mundo compreende a si mesmo. Um mundo cada vez mais sensível
à leitura iconográfica, da publicidade, do cinema
e da televisão, não lidas enquanto representações
das inúmeras realidades. Dessa forma, nosso interesse é
antes uma necessidade considerável na apreensão
das idéias representadas por este tipo de texto e, quiçá,
pode-se através das análises históricas,
haver também uma contribuição exponencial
a esta "alfabetização".
É dentro
deste quadro que ao iniciarmos esta caminhada visamos difundir
e incentivar trabalhos que contemplem imagens enquanto fontes
históricas, explorando suas diversas potencialidades e
indo ao encontro de propostas interdisciplinares. Não obstante,
ser referenciada como lugar de troca e divulgação
destas mesmas práticas. Centralizar olhares significa possibilitar
a produção de novos conhecimentos, métodos
de análises e busca de novas perspectivas. Significa agregar
saberes e estabelecer o intercâmbio.
É pensando
em tudo isso que, de modo concordante com as aspirações
de História, imagem e narrativas, desde já convém
uma breve análise sobre uma parte de nosso visual: toda
imagem é uma tradução/interpretação
do real e não pode ser considerada propriamente uma cópia
fiel da coisa representada. Em torno de um desenho, pintura, fotografia
etc., há uma carga afetiva, subjetiva, cultural, temporal
- ou quantos termos mais pudermos encontrar para dizer que aquilo
que vemos passa por diversos filtros de percepção
e por construções pertinentes a seu tempo e sociedade
antes de assumir um significado. Desse modo, podemos entender
que o cavaleiro templário acima na verdade não é
um cavaleiro templário. É uma representação
contemporânea de um, com base em textos, iluminuras, miniaturas
e outras modalidades artísticas - uma verdadeira intertextualidade
da imagem - feitas anteriormente. Se o leitor aguçar o
próprio olhar, verá também uma influência
decisiva da arte de um sem-número de histórias em
quadrinhos, sobretudo as de super-heróis musculosos, com
sombreado dramático e pose de ação típica
do gênero. De fato, o artista que desenhou o cavaleiro é
um aficcionado em HQ's, e em seu traço embutiu um pouco
de seu estilo pessoal, isto é, sua maneira de formar as
linhas do desenho (ou de reproduzir e sintetizar de um modo particular
maneiras aprendidas de trabalhos de terceiros). Cumpre observar
que a figura foi inspirada inicialmente pelo fato de o artista
ter ingressado num curso de mestrado poucos meses antes de desenhá-la,
no qual veio desenvolvendo sua dissertação a respeito
de nada menos que a figura literária do cavaleiro e suas
representações. Junte-se a isso o contexto cinematográfico
do período em que aquela arte fora posta no papel: ela
veio concomitantemente ao lançamento do filme "Cruzada",
de Ridley Scott (aliás, "Sir" Ridley Scott -
ele também um caval(h)eiro desde 2003, quando recebeu o
título). Por aí, ainda que de um modo resumido,
já é possível perceber alguns dos motivos
históricos, artísticos, técnicos e culturais
para certos rabiscos realizados pelo autor que, entre signos e
significantes, parecem ao olho humano um guerreiro pronto para
desferir golpes.
Quanto à
logomarca, vemos um "H" estilizado como ampulheta, símbolo
do transcorrer do tempo, algo comumente usado para representar
o estudo de História. A areia corrente marca a idéia
de continuidade e linearidade em seu passar, mas, ao lado, há
um borrão de tinta que além de constituir uma espécie
de onda (também um ícone de mudanças - Lulu
Santos diria: "Nada do que foi será de novo de um
jeito que já foi um dia... como uma onda no mar"),
também funciona como um elemento descontínuo e de
temporalidades diversas atuantes num todo. Nele várias
linhas ou porções coexistem num mesmo espaço,
enquanto imagens de épocas e locais diferentes atravessam-no
fugazmente, num átimo, podendo desaparecer, como as imagens
que esmaecem à esquerda da onda-borrão, ou imbricar-se
numa "atualidade" de longa, média e curta duração,
à direita, com cores mais fortes e formas mais nítidas.
Nossa memória talvez funcione de um modo similar àquela
onda-borrão, num esmaecer e recordar ondulante e não-linear.
Imagens, tanto quanto rimas e ritmos, parecem ser meios de trazer
à memória, seja a subjetiva, seja aquela construída
pelo historiador, aquilo que já foi, mas que não
será "de novo do jeito que já foi um dia..."
Esperamos
que os leitores possam aprender, contribuir, participar, tanto
quanto se divertir. Se buscar o saber é como saborear,
desejamos que cada um possa ter tanto prazer quanto nós
tivemos ao realizar esse trabalho. Ele é para todos. Enfim,
acreditamos que é com deleite que se produz o conhecimento
e que este último, por sua vez, gera o primeiro.
Carlos
Hollanda & Walter Marcelo Ramundo
12/09/2005