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ISSN 1808-9895

Editorial
edição 1 - setembro de 2005

Com este primeiro número de História, imagem e narrativas damos a todos as boas-vindas a uma revista que vem num momento muito especial para o estudo da História no Brasil e, graças à Internet, propõe-se a servir como mais um canal para estudos provenientes também de outros países. O atual crescimento do interesse dos leitores, formados ou não na disciplina, mostra que a mesma pode e deve ser abordada de maneiras variadas, sobretudo criativas. É preciso não engessá-las num formato exclusivamente acadêmico, buscando um meio-termo entre ele e um estilo leve e cativante que gere proximidade entre o público e os autores. É um trabalho de promoção de diálogo que funciona como provar e deleitar-se com novas iguarias. Aliás, conhecer a História é algo delicioso - quase no sentido palatável do termo - e já que ."saber" .e. "sabor" têm a .mesma ..raiz

etimológica, nada como degustar as possibilidades que o olhar sobre a produção imagética e literária nos oferece através de incontáveis fontes. Cabe ainda ressaltar que as relações sociais atuais estão progressivamente mediadas por imagens, o que significa que esta vem sendo a principal linguagem pela qual o mundo compreende a si mesmo. Um mundo cada vez mais sensível à leitura iconográfica, da publicidade, do cinema e da televisão, não lidas enquanto representações das inúmeras realidades. Dessa forma, nosso interesse é antes uma necessidade considerável na apreensão das idéias representadas por este tipo de texto e, quiçá, pode-se através das análises históricas, haver também uma contribuição exponencial a esta "alfabetização".

É dentro deste quadro que ao iniciarmos esta caminhada visamos difundir e incentivar trabalhos que contemplem imagens enquanto fontes históricas, explorando suas diversas potencialidades e indo ao encontro de propostas interdisciplinares. Não obstante, ser referenciada como lugar de troca e divulgação destas mesmas práticas. Centralizar olhares significa possibilitar a produção de novos conhecimentos, métodos de análises e busca de novas perspectivas. Significa agregar saberes e estabelecer o intercâmbio.

É pensando em tudo isso que, de modo concordante com as aspirações de História, imagem e narrativas, desde já convém uma breve análise sobre uma parte de nosso visual: toda imagem é uma tradução/interpretação do real e não pode ser considerada propriamente uma cópia fiel da coisa representada. Em torno de um desenho, pintura, fotografia etc., há uma carga afetiva, subjetiva, cultural, temporal - ou quantos termos mais pudermos encontrar para dizer que aquilo que vemos passa por diversos filtros de percepção e por construções pertinentes a seu tempo e sociedade antes de assumir um significado. Desse modo, podemos entender que o cavaleiro templário acima na verdade não é um cavaleiro templário. É uma representação contemporânea de um, com base em textos, iluminuras, miniaturas e outras modalidades artísticas - uma verdadeira intertextualidade da imagem - feitas anteriormente. Se o leitor aguçar o próprio olhar, verá também uma influência decisiva da arte de um sem-número de histórias em quadrinhos, sobretudo as de super-heróis musculosos, com sombreado dramático e pose de ação típica do gênero. De fato, o artista que desenhou o cavaleiro é um aficcionado em HQ's, e em seu traço embutiu um pouco de seu estilo pessoal, isto é, sua maneira de formar as linhas do desenho (ou de reproduzir e sintetizar de um modo particular maneiras aprendidas de trabalhos de terceiros). Cumpre observar que a figura foi inspirada inicialmente pelo fato de o artista ter ingressado num curso de mestrado poucos meses antes de desenhá-la, no qual veio desenvolvendo sua dissertação a respeito de nada menos que a figura literária do cavaleiro e suas representações. Junte-se a isso o contexto cinematográfico do período em que aquela arte fora posta no papel: ela veio concomitantemente ao lançamento do filme "Cruzada", de Ridley Scott (aliás, "Sir" Ridley Scott - ele também um caval(h)eiro desde 2003, quando recebeu o título). Por aí, ainda que de um modo resumido, já é possível perceber alguns dos motivos históricos, artísticos, técnicos e culturais para certos rabiscos realizados pelo autor que, entre signos e significantes, parecem ao olho humano um guerreiro pronto para desferir golpes.

Quanto à logomarca, vemos um "H" estilizado como ampulheta, símbolo do transcorrer do tempo, algo comumente usado para representar o estudo de História. A areia corrente marca a idéia de continuidade e linearidade em seu passar, mas, ao lado, há um borrão de tinta que além de constituir uma espécie de onda (também um ícone de mudanças - Lulu Santos diria: "Nada do que foi será de novo de um jeito que já foi um dia... como uma onda no mar"), também funciona como um elemento descontínuo e de temporalidades diversas atuantes num todo. Nele várias linhas ou porções coexistem num mesmo espaço, enquanto imagens de épocas e locais diferentes atravessam-no fugazmente, num átimo, podendo desaparecer, como as imagens que esmaecem à esquerda da onda-borrão, ou imbricar-se numa "atualidade" de longa, média e curta duração, à direita, com cores mais fortes e formas mais nítidas. Nossa memória talvez funcione de um modo similar àquela onda-borrão, num esmaecer e recordar ondulante e não-linear. Imagens, tanto quanto rimas e ritmos, parecem ser meios de trazer à memória, seja a subjetiva, seja aquela construída pelo historiador, aquilo que já foi, mas que não será "de novo do jeito que já foi um dia..."

Esperamos que os leitores possam aprender, contribuir, participar, tanto quanto se divertir. Se buscar o saber é como saborear, desejamos que cada um possa ter tanto prazer quanto nós tivemos ao realizar esse trabalho. Ele é para todos. Enfim, acreditamos que é com deleite que se produz o conhecimento e que este último, por sua vez, gera o primeiro.

Carlos Hollanda & Walter Marcelo Ramundo
12/09/2005

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