Editorial
edição
10 - abril de 2010
A
pesquisa acadêmica e os "assuntos-tabu"
Apenas
a título de comparação, os
parágrafos iniciais deste
editorial falarão primeiramente de assuntos considerados
por muitos como "pouco nobres", para, logo em seguida,
saltar para outro, tido como ainda menos digno de atenção
por grande parte da comunidade acadêmica. Este compõe
nosso presente encarte especial.
Nossa
publicação vem "cutucando" algumas dessas
complicações desde o lançamento de seu primeiro
número. Valorizamos, por exemplo, junto às mais diversas
vertentes historiográficas, pesquisas em História
Medieval, num país em que, até bem pouco tempo, pesquisar
o medievo era visto como "perda de tempo" ou algo semelhante.
A justificativa mais frequente não se distanciava muito de
"o Brasil não teve Idade Média, então
para que estudar isso?". Justamente o Brasil, um país
de dimensões tão extensas e de cultura tão
plural, com seu histórico de colonização ibérica
e toda sua "antropofagia" e hibridismo, em que o parentesco
com as raízes européias não poder-se-ia evaporar
facilmente. O mesmo se dá ainda com outro tema, este, na
verdade, marginalizado dentro e fora do mundo acadêmico: as
histórias em quadrinhos.
Décadas
atrás, quando alguém nos via lendo histórias
em quadrinhos não tardava a dizer o quanto tal atitude era
imatura. "Lendo coisa de criança! Vá procurar
algo sério para fazer!", costumava-se ouvir. Ainda
que fossem aquelas com um nível extremo de violência
ou as que representam questões sociais mais complexas, como
prostituição, tráfico de drogas, corrupção
entre políticos, descobertas científicas recentes,
as críticas permaneciam. Elas, no entanto, provinham de pessoas
que sequer haviam lido um exemplar daquelas obras. Falavam com total
desconhecimento do assunto e tomavam-se por pessoas mais responsáveis
e instruídas, ainda que estivessem no que hoje seriam os
primeiros anos do ensino fundamental e ainda que o futebol de rua,
todas as tardes, fosse por eles considerado algo realmente sério
e não um lazer como aquelas leituras.
Hoje
nem tudo mudou. A mesma "literatura de segunda categoria"
continua sendo tida como perda de tempo. No entanto, ao menos nos
campos de Artes, Letras e Comunicação, com algumas
incursões em História e Antropologia, há vários
estudos sérios sobre o assunto. Muitos deles visam demonstrar
o modo como as representações visuais e literárias
dos quadrinhos mexem com o imaginário, promovem ideologias
e até estimulam o interesse em pesquisas científicas,
como é o caso da dissertação de mestrado de
Ivan Carlo Andrade de Oliveira (Gian Danton), "A
divulgação científica nos quadrinhos: o caso
Watchmen".
A
necessidade de transitar entre campos diferentes do saber acabou
estimulando o já nascente interesse em estudos interdisciplinares,
aqui em H.I.N. Isso fez com que o perfil da revista, inicialmente
mais voltado para História, fosse diversificado e fizesse
juz a seu título, tornando-se de fato uma publicação
que abriga aquele e outros olhares de Humanidades em igual proporção.
Eis, portanto, mais um aspecto relativamente outsider,
tomando de empréstimo o sentido do termo para Norbert Elias,
numa publicação de caráter acadêmico
que com tudo isso atraiu a atenção de graduandos,
pós-graduandos, mestres, doutores, pós-doutores, professores
universitários nacionais e estrangeiros. Ainda que saibamos
que um longo caminho precisa ser trilhado para um maior grau de
excelência, ter sensibilizado um público com tal formação
é bastante alentador.
É
ainda com esse espírito inquiridor e com essa atração
pelo "perigo" que "História, imagem e narrativas"
chega ao seu quinto ano de publicação e à sua
décima empreitada. Desta vez, com o supracitado encarte especial,
que versa sobre temas como hermetismo, gnosticismo, astrologia,
neoplatonismo, entre outros que lhes são correlatos. De fato,
este parece ser um dos campos mais controversos, mas não
por ser ou deixar de ser impossível estudá-lo. A maior
dificuldade ainda está nas barreiras da desinformação
e do preconceito, nas resistências "feudais" até
mesmo a um ou mais dos termos acima listados. Basta dizê-lo
e corre-se o risco de sofrer um verdadeiro embargo ideológico
vindo de várias direções. Por
exemplo, quando alguns representantes dos "estabelecidos"
questionam sobre a existência algum trabalho de pós-graduação
que disserte sobre tais assuntos, costumam por em dúvida
a credibilidade dos proponentes.
No
entanto, aqueles temerários proponentes encontram-se muito
bem acompanhados por nomes de grande peso nas ciências humanas
pelo mundo e por dezenas de brasileiros que aplicaram seu olhar
sobre o assunto com rigor científico em dissertações
e teses. Em vez de recorrer a um argumento de autoridade ou a qualquer
outra falácia, citar nomes de autores consagrados aqui tem
outro objetivo. Trata-se tão somente de chamar a atenção
para o seguinte fato: se essas pessoas, reconhecidamente sérias
e rigorosas do ponto de vista da ciência vigente, se detiveram
em tais análises, estas últimas não devem ser
tão absurdas assim. Ao menos é cogitável o
diálogo ou algum tipo de reconsideração. São
pessoas como Peter Burke (ver reportagem "Signos
em Rotação"), Gershom Scholem ("Grandes
correntes da mística judaica"), Edgar Morin ("O
retorno dos astrólogos"), Ernst Cassirer ("Indivíduo
e cosmo na filosofia do Renascimento"), além de
outros que nos últimos cerca de 20 anos dedicaram livros
inteiros ao tema: Benson Bobrick ("The
fated sky"), Kocku von Stuckrad ("História
da astrologia"), Richard Tarnas ("Cosmos
and Psyche" e "The
passion of the western mind"), Tamsin Barton ("Power
and Knowledge") e Jim Tester ("A
History of Western Astrology"). Isso apenas para citar
quem já escreveu acerca da astrologia (sim, um dos termos
passíveis de rejeições acaba de ser escrito).
A questão não se restringe a defesas ou ataques específicos,
mas a análises pertinentes dentro de um corte epistemológico.
Há considerações favoráveis e há
as desfavoráveis, algo perfeitamente aceitável, ao
contrário de desconsiderações absolutas provindas
de total desconhecimento ou da arrogância de quem domina um
dado saber e por isso se crê autoridade noutro com o qual
jamais teve o menor contato ou o teve superficialmente.
No
Brasil, entre pesquisadores de elevada seriedade, o historiador
Ricardo da Costa, em sua conhecida página
de Internet, dedicou um longo artigo a respeito da astrologia
medieval, sem atacar ou defender qualquer premissa de validação.
Ele a analisou em seu tempo, assim como o fez o astrônomo
Amâncio Friaça em alguns de seus artigos e no livro
"Trivium
e Quadrivium - as artes liberais na Idade Média".
Isso apenas em se tratando de um corte voltado para a Idade Média,
sabendo que é possível fazê-lo focalizando diversas
épocas e contextos.
Neste
editorial não é nosso objetivo citar todos os trabalhos
e olhares aprofundados sobre o fenômeno histórico e
sociocultural dos astrólogos e de saberes correlatos (Tarot,
Kabbalah, Hermetismo etc.). O grande número existente excede
as expectativas. Assim, contamos com a ajuda de Cristina de Amorim
Machado, que gentilmente cedeu um trecho de sua tese de doutorado
acerca das traduções do "Tetrabiblos", de
Ptolomeu. Lá ela nos fornece uma bibliografia
com dissertações, teses e livros de autores famosos,
cada qual em sua área acadêmica, que se dedicaram ao
tema. Não é tudo o que existe, é um começo
para quem se propuser a investigar com honestidade.
Os
artigos do encarte especial (em preto, no sumário) constituem
um conteúdo um tanto breve, apesar de relativamente denso.
Eles não versam exclusivamente sobre os astros, mas sim sobre
mais de uma forma de saber atualmente considerado não-científico
na maioria das instituições produtoras de conhecimento
brasileiras. Assim temos estudos sobre hermenêutica nas imagens
do Tarot, simbolismo astrológico e cabalístico nos
quadrinhos, abordagens filosóficas a respeito de artes divinatórias
desde a Antiguidade e análises sobre o sagrado e o profano
na arte barroca. São ao todo 8 artigos com enfoques em torno
de "assuntos-tabu" no mundo acadêmico, sempre relacionados
a algum outro assunto de relevo social, seja nas imagens, seja nas
narrativas.
Na
edição normal são 12 artigos. Recebemos contribuições
de Portugal, pela Universidade do Minho, e de várias instituições
federais e estaduais Brasil afora. Entre o material recebido estão
algumas importantes análises sobre a produção
de cartuns e histórias em quadrinhos, algo que nossa publicação,
já o dissemos, vem estimulando desde o início. Os
estudos sobre cinema também vêm sendo cada vez mais
frequentes e esta edição traz 3 artigos sob o olhar
da História e da Sociologia. Entre os artigos da edição
"tradicional" figura um que caberia no encarte especial,
caso percorresse as mesmas linhas ligadas ao hermetismo, concepções
neoplatônicas, artes divinatórias etc. Mesmo assim,
ao realizar um estudo antropológico sobre o espiritismo,
desperta interesse por estar entre os tabus acadêmicos. "História,
imagem e narrativas", a propósito, já publicou
um artigo de perfil semelhante, na análise de José
Henrique Motta de Oliveira, na edição
número 4.
Nunca
é tarde para recordar que o espírito científico
é aquele que mantém uma abertura para o estudo de
novos pontos de vista. Estudiosos reconhecidos pela comunidade científica,
infelizmente ainda são, em sua maioria, os que defendem os
pontos de vista tradicionais, estando quase sempre de prontidão
para resistir a qualquer "novidade" fora de suas expectativas.
Dentro dessas resistências, não raro alega-se "falta
de vigência" de um dado assunto ou "ausência
de seriedade". Há quem tome por ingênuo aquele
que realiza pesquisas do tipo e até põe em dúvida
a honestidade dessas pessoas ressaltando seu envolvimento profissional
ou afetivo com suas análises. Quanto a isso, lançamos,
em retorno, outros questionamentos sobre os argumentos resistentes.
Ei-los:
Vigência
- Notas
de réis ou mesmo de cruzeiros, de cruzados, todos papéis-moeda
brasileiros que há muito perderam a validade, obviamente
não são vigentes do ponto de vista monetário.
Isso significa, então, que não merecem qualquer tipo
de análise acadêmica? Esse dinheiro "não-vigente"
não pode ser estudado? Sob qualquer ângulo?
Ingenuidade
- Pretender
analisar determinado tema complexo ou "não-científico"
dentro de um dado paradigma, num dado momento, é sinal de
total ingenuidade? Será que um proponente de temas assim
não estaria de posse de algo que a princípio não
teria sido levado em conta? É preciso considerá-lo
tolo apenas por que não enxergamos o mesmo que ele num primeiro
momento? Ou será que somos nós os arrogantes e verdadeiramente
ingênuos a tecer comentários precipitados sobre aquilo
que acreditamos ser absurdo sem que o tenhamos conhecido a fundo?
Envolvimento
- Um
físico, por estar muito envolvido com seu tipo de trabalho
e de raciocínio, não pode estudar assuntos ligados
à Física em Ciências Humanas? Caso o faça,
será necessariamente tendencioso? Outros pesquisadores de
outros campos do saber também não o seriam? Se por
um lado esse envolvimento pode cegar um pesquisador para certos
aspectos, por outro não seria ele apto a falar com propriedade
sobre aquele objeto que, certamente, pela convivência com
o mesmo, domina melhor do que os "não-envolvidos"?
Não é possível haver, sob qualquer hipótese,
um esforço para um mínimo de distanciamento? Quem
determinou que não? Quem determinou que tal coisa seria impossível?
Alguma força sobrenatural ou divina? Uma divindade da Razão
absoluta? Quem, numa pesquisa científica, não parte
de um envolvimento com seu tema? Valeria a pena dedicar tantos anos
de trabalho a algo sem que houvesse interesse? Há sentido
nisso?
Seriedade
- Quem
pesquisa assuntos considerados tabu no meio acadêmico não
pode ser levado a sério? Essa premissa, falsa que é,
não seria um tanto semelhante à que levou Galileu
e Copérnico ao tribunal da Inquisição? Devemos
levar a sério alguém que, escondido sob uma carapaça
de legitimidade, determina quais são os assuntos permitidos
e os não-permitidos numa pesquisa científica? Devemos
levá-lo a sério, se justamente o olhar científico
se propõe a ir mais fundo num assunto, ainda que ele não
seja caro ao senso comum? Ou mesmo à "vigência"?
Ainda que se esteja tratando desse assunto dentro de seu tempo?
Senso
comum - Haveria
algo assim apenas fora do meio acadêmico? Não estaríamos
todos nós sujeitos a uma espécie de "senso comum
de nível superior", com o qual classificamos como sem
fundamento tudo o que não se encaixa no que, no máximo,
apenas se ouviu falar? Não seria mais científico,
e também acadêmico, antes de condenar algo, proceder
com uma investigação? Ou, ainda, abrir a possibilidade
de diálogo? Voltando ao item "ingenuidade", seria
possível que simplesmente ao propor-se dissertar a respeito
de assuntos-tabu o proponente deveria ser visto como "desinformado"?
"Iludido"? Ele não pode saber muito bem o que pretende
dizer?
Discussão
- Estaria
um assunto completamente fora de discussão, se há
quem o enxergue sob um outro ângulo? Esse assunto já
teria se esgotado sob todos os pontos de vista? Somos tão
perfeitos a ponto de termos enxergado todas as possibilidades, sem
qualquer lacuna? Outros não podem ver essa lacuna?
Após
tantas questões suscitadas, convidamos os leitores à
leitura desta edição, que visa, ao menos, estimular
a produção de novos olhares a respeito.
Carlos
Hollanda - editor
Doutorando - PPGAV - Programa de Pós-Graduação
em Artes Visuais (EBA-UFRJ)
Mestre em História Comparada (PPGHC-UFRJ)
23/04/2010
|