Constelar - Última edição Astroletiva

ISSN 1808-9895

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Editorial
edição 10 - abril de 2010


A pesquisa acadêmica e os "assuntos-tabu"

Apenas a título de comparação, os parágrafos iniciais deste editorial falarão primeiramente de assuntos considerados por muitos como "pouco nobres", para, logo em seguida, saltar para outro, tido como ainda menos digno de atenção por grande parte da comunidade acadêmica. Este compõe nosso presente encarte especial.

Nossa publicação vem "cutucando" algumas dessas complicações desde o lançamento de seu primeiro número. Valorizamos, por exemplo, junto às mais diversas vertentes historiográficas, pesquisas em História Medieval, num país em que, até bem pouco tempo, pesquisar o medievo era visto como "perda de tempo" ou algo semelhante. A justificativa mais frequente não se distanciava muito de "o Brasil não teve Idade Média, então para que estudar isso?". Justamente o Brasil, um país de dimensões tão extensas e de cultura tão plural, com seu histórico de colonização ibérica e toda sua "antropofagia" e hibridismo, em que o parentesco com as raízes européias não poder-se-ia evaporar facilmente. O mesmo se dá ainda com outro tema, este, na verdade, marginalizado dentro e fora do mundo acadêmico: as histórias em quadrinhos.

Décadas atrás, quando alguém nos via lendo histórias em quadrinhos não tardava a dizer o quanto tal atitude era imatura. "Lendo coisa de criança! Vá procurar algo sério para fazer!", costumava-se ouvir. Ainda que fossem aquelas com um nível extremo de violência ou as que representam questões sociais mais complexas, como prostituição, tráfico de drogas, corrupção entre políticos, descobertas científicas recentes, as críticas permaneciam. Elas, no entanto, provinham de pessoas que sequer haviam lido um exemplar daquelas obras. Falavam com total desconhecimento do assunto e tomavam-se por pessoas mais responsáveis e instruídas, ainda que estivessem no que hoje seriam os primeiros anos do ensino fundamental e ainda que o futebol de rua, todas as tardes, fosse por eles considerado algo realmente sério e não um lazer como aquelas leituras.

Hoje nem tudo mudou. A mesma "literatura de segunda categoria" continua sendo tida como perda de tempo. No entanto, ao menos nos campos de Artes, Letras e Comunicação, com algumas incursões em História e Antropologia, há vários estudos sérios sobre o assunto. Muitos deles visam demonstrar o modo como as representações visuais e literárias dos quadrinhos mexem com o imaginário, promovem ideologias e até estimulam o interesse em pesquisas científicas, como é o caso da dissertação de mestrado de Ivan Carlo Andrade de Oliveira (Gian Danton), "A divulgação científica nos quadrinhos: o caso Watchmen".

A necessidade de transitar entre campos diferentes do saber acabou estimulando o já nascente interesse em estudos interdisciplinares, aqui em H.I.N. Isso fez com que o perfil da revista, inicialmente mais voltado para História, fosse diversificado e fizesse juz a seu título, tornando-se de fato uma publicação que abriga aquele e outros olhares de Humanidades em igual proporção. Eis, portanto, mais um aspecto relativamente outsider, tomando de empréstimo o sentido do termo para Norbert Elias, numa publicação de caráter acadêmico que com tudo isso atraiu a atenção de graduandos, pós-graduandos, mestres, doutores, pós-doutores, professores universitários nacionais e estrangeiros. Ainda que saibamos que um longo caminho precisa ser trilhado para um maior grau de excelência, ter sensibilizado um público com tal formação é bastante alentador.

É ainda com esse espírito inquiridor e com essa atração pelo "perigo" que "História, imagem e narrativas" chega ao seu quinto ano de publicação e à sua décima empreitada. Desta vez, com o supracitado encarte especial, que versa sobre temas como hermetismo, gnosticismo, astrologia, neoplatonismo, entre outros que lhes são correlatos. De fato, este parece ser um dos campos mais controversos, mas não por ser ou deixar de ser impossível estudá-lo. A maior dificuldade ainda está nas barreiras da desinformação e do preconceito, nas resistências "feudais" até mesmo a um ou mais dos termos acima listados. Basta dizê-lo e corre-se o risco de sofrer um verdadeiro embargo ideológico vindo de várias direções. Por exemplo, quando alguns representantes dos "estabelecidos" questionam sobre a existência algum trabalho de pós-graduação que disserte sobre tais assuntos, costumam por em dúvida a credibilidade dos proponentes.

No entanto, aqueles temerários proponentes encontram-se muito bem acompanhados por nomes de grande peso nas ciências humanas pelo mundo e por dezenas de brasileiros que aplicaram seu olhar sobre o assunto com rigor científico em dissertações e teses. Em vez de recorrer a um argumento de autoridade ou a qualquer outra falácia, citar nomes de autores consagrados aqui tem outro objetivo. Trata-se tão somente de chamar a atenção para o seguinte fato: se essas pessoas, reconhecidamente sérias e rigorosas do ponto de vista da ciência vigente, se detiveram em tais análises, estas últimas não devem ser tão absurdas assim. Ao menos é cogitável o diálogo ou algum tipo de reconsideração. São pessoas como Peter Burke (ver reportagem "Signos em Rotação"), Gershom Scholem ("Grandes correntes da mística judaica"), Edgar Morin ("O retorno dos astrólogos"), Ernst Cassirer ("Indivíduo e cosmo na filosofia do Renascimento"), além de outros que nos últimos cerca de 20 anos dedicaram livros inteiros ao tema: Benson Bobrick ("The fated sky"), Kocku von Stuckrad ("História da astrologia"), Richard Tarnas ("Cosmos and Psyche" e "The passion of the western mind"), Tamsin Barton ("Power and Knowledge") e Jim Tester ("A History of Western Astrology"). Isso apenas para citar quem já escreveu acerca da astrologia (sim, um dos termos passíveis de rejeições acaba de ser escrito). A questão não se restringe a defesas ou ataques específicos, mas a análises pertinentes dentro de um corte epistemológico. Há considerações favoráveis e há as desfavoráveis, algo perfeitamente aceitável, ao contrário de desconsiderações absolutas provindas de total desconhecimento ou da arrogância de quem domina um dado saber e por isso se crê autoridade noutro com o qual jamais teve o menor contato ou o teve superficialmente.

No Brasil, entre pesquisadores de elevada seriedade, o historiador Ricardo da Costa, em sua conhecida página de Internet, dedicou um longo artigo a respeito da astrologia medieval, sem atacar ou defender qualquer premissa de validação. Ele a analisou em seu tempo, assim como o fez o astrônomo Amâncio Friaça em alguns de seus artigos e no livro "Trivium e Quadrivium - as artes liberais na Idade Média". Isso apenas em se tratando de um corte voltado para a Idade Média, sabendo que é possível fazê-lo focalizando diversas épocas e contextos.

Neste editorial não é nosso objetivo citar todos os trabalhos e olhares aprofundados sobre o fenômeno histórico e sociocultural dos astrólogos e de saberes correlatos (Tarot, Kabbalah, Hermetismo etc.). O grande número existente excede as expectativas. Assim, contamos com a ajuda de Cristina de Amorim Machado, que gentilmente cedeu um trecho de sua tese de doutorado acerca das traduções do "Tetrabiblos", de Ptolomeu. Lá ela nos fornece uma bibliografia com dissertações, teses e livros de autores famosos, cada qual em sua área acadêmica, que se dedicaram ao tema. Não é tudo o que existe, é um começo para quem se propuser a investigar com honestidade.

Os artigos do encarte especial (em preto, no sumário) constituem um conteúdo um tanto breve, apesar de relativamente denso. Eles não versam exclusivamente sobre os astros, mas sim sobre mais de uma forma de saber atualmente considerado não-científico na maioria das instituições produtoras de conhecimento brasileiras. Assim temos estudos sobre hermenêutica nas imagens do Tarot, simbolismo astrológico e cabalístico nos quadrinhos, abordagens filosóficas a respeito de artes divinatórias desde a Antiguidade e análises sobre o sagrado e o profano na arte barroca. São ao todo 8 artigos com enfoques em torno de "assuntos-tabu" no mundo acadêmico, sempre relacionados a algum outro assunto de relevo social, seja nas imagens, seja nas narrativas.

Na edição normal são 12 artigos. Recebemos contribuições de Portugal, pela Universidade do Minho, e de várias instituições federais e estaduais Brasil afora. Entre o material recebido estão algumas importantes análises sobre a produção de cartuns e histórias em quadrinhos, algo que nossa publicação, já o dissemos, vem estimulando desde o início. Os estudos sobre cinema também vêm sendo cada vez mais frequentes e esta edição traz 3 artigos sob o olhar da História e da Sociologia. Entre os artigos da edição "tradicional" figura um que caberia no encarte especial, caso percorresse as mesmas linhas ligadas ao hermetismo, concepções neoplatônicas, artes divinatórias etc. Mesmo assim, ao realizar um estudo antropológico sobre o espiritismo, desperta interesse por estar entre os tabus acadêmicos. "História, imagem e narrativas", a propósito, já publicou um artigo de perfil semelhante, na análise de José Henrique Motta de Oliveira, na edição número 4.

Nunca é tarde para recordar que o espírito científico é aquele que mantém uma abertura para o estudo de novos pontos de vista. Estudiosos reconhecidos pela comunidade científica, infelizmente ainda são, em sua maioria, os que defendem os pontos de vista tradicionais, estando quase sempre de prontidão para resistir a qualquer "novidade" fora de suas expectativas. Dentro dessas resistências, não raro alega-se "falta de vigência" de um dado assunto ou "ausência de seriedade". Há quem tome por ingênuo aquele que realiza pesquisas do tipo e até põe em dúvida a honestidade dessas pessoas ressaltando seu envolvimento profissional ou afetivo com suas análises. Quanto a isso, lançamos, em retorno, outros questionamentos sobre os argumentos resistentes. Ei-los:

Vigência - Notas de réis ou mesmo de cruzeiros, de cruzados, todos papéis-moeda brasileiros que há muito perderam a validade, obviamente não são vigentes do ponto de vista monetário. Isso significa, então, que não merecem qualquer tipo de análise acadêmica? Esse dinheiro "não-vigente" não pode ser estudado? Sob qualquer ângulo?

Ingenuidade - Pretender analisar determinado tema complexo ou "não-científico" dentro de um dado paradigma, num dado momento, é sinal de total ingenuidade? Será que um proponente de temas assim não estaria de posse de algo que a princípio não teria sido levado em conta? É preciso considerá-lo tolo apenas por que não enxergamos o mesmo que ele num primeiro momento? Ou será que somos nós os arrogantes e verdadeiramente ingênuos a tecer comentários precipitados sobre aquilo que acreditamos ser absurdo sem que o tenhamos conhecido a fundo?

Envolvimento - Um físico, por estar muito envolvido com seu tipo de trabalho e de raciocínio, não pode estudar assuntos ligados à Física em Ciências Humanas? Caso o faça, será necessariamente tendencioso? Outros pesquisadores de outros campos do saber também não o seriam? Se por um lado esse envolvimento pode cegar um pesquisador para certos aspectos, por outro não seria ele apto a falar com propriedade sobre aquele objeto que, certamente, pela convivência com o mesmo, domina melhor do que os "não-envolvidos"? Não é possível haver, sob qualquer hipótese, um esforço para um mínimo de distanciamento? Quem determinou que não? Quem determinou que tal coisa seria impossível? Alguma força sobrenatural ou divina? Uma divindade da Razão absoluta? Quem, numa pesquisa científica, não parte de um envolvimento com seu tema? Valeria a pena dedicar tantos anos de trabalho a algo sem que houvesse interesse? Há sentido nisso?

Seriedade - Quem pesquisa assuntos considerados tabu no meio acadêmico não pode ser levado a sério? Essa premissa, falsa que é, não seria um tanto semelhante à que levou Galileu e Copérnico ao tribunal da Inquisição? Devemos levar a sério alguém que, escondido sob uma carapaça de legitimidade, determina quais são os assuntos permitidos e os não-permitidos numa pesquisa científica? Devemos levá-lo a sério, se justamente o olhar científico se propõe a ir mais fundo num assunto, ainda que ele não seja caro ao senso comum? Ou mesmo à "vigência"? Ainda que se esteja tratando desse assunto dentro de seu tempo?

Senso comum - Haveria algo assim apenas fora do meio acadêmico? Não estaríamos todos nós sujeitos a uma espécie de "senso comum de nível superior", com o qual classificamos como sem fundamento tudo o que não se encaixa no que, no máximo, apenas se ouviu falar? Não seria mais científico, e também acadêmico, antes de condenar algo, proceder com uma investigação? Ou, ainda, abrir a possibilidade de diálogo? Voltando ao item "ingenuidade", seria possível que simplesmente ao propor-se dissertar a respeito de assuntos-tabu o proponente deveria ser visto como "desinformado"? "Iludido"? Ele não pode saber muito bem o que pretende dizer?

Discussão - Estaria um assunto completamente fora de discussão, se há quem o enxergue sob um outro ângulo? Esse assunto já teria se esgotado sob todos os pontos de vista? Somos tão perfeitos a ponto de termos enxergado todas as possibilidades, sem qualquer lacuna? Outros não podem ver essa lacuna?

Após tantas questões suscitadas, convidamos os leitores à leitura desta edição, que visa, ao menos, estimular a produção de novos olhares a respeito.

Carlos Hollanda - editor
Doutorando - PPGAV - Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais (EBA-UFRJ)
Mestre em História Comparada (PPGHC-UFRJ)
23/04/2010

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